Debate sobre os novos modelos de mediação tecnológica no ensino e aprendizagem foi um dos destaques do evento que termina amanhã

“As mídias e metodologias podem ser aliados importantes para o professor reduzir a percepção de distanciamento dos alunos seja no espaço físico ou virtual”, Romero Tori, professor da USP


Em tempos de novas metodologias na educação, vale a pena perguntar: o que esperar do futuro pós-pandemia para os novos modelos de mediação tecnológica no ensino e aprendizagem? Como construir metodologias e espaços que garantam uma boa aprendizagem? 

Para romper os desafios das distâncias na educação, a  Semana de Inovação 2021 convidou o especialista, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Romero Tori, para uma roda de conversa.

Autor do livro e do blog, que levam o mesmo nome do painel, “Educação sem distância”, Tori abordou temas como distância transacional, estado mental de flow e tecnologias de imersão de realidade virtual e realidade aumentada, como o metaverso, um conceito não tão distante apresentado pelo Facebook no último mês. 

Com análises e exemplos, que contribuem para a formação e para a atualização de educadores e interessados no tema, o palestrante abordou o uso de novas mídias e tecnologias no ensino e aprendizado, a distância, presencial ou de forma híbrida.

Ele também desconstruiu questões relacionadas à mediação tecnológica no ensino e aprendizagem e destacou que é possível reduzir as distâncias e aproximar pessoas por meio de mídias imersivas. E, embora a adoção de novas tecnologias não garanta a qualidade da educação, para ele “essas tecnologias podem reduzir as distâncias em em salas de aula dado o seu potencial de inovação, e se bem utilizadas, melhorar a educação”, frisou Romero Tori.

Citando a teoria da distância transacional, o professor explicou as variáveis da extensão dessa distância concebida em termos de aspectos psicológicos e pedagógicos, e não com base em fatores geográficos e tecnológicos, que são: o  diálogo,  a  estrutura do programa  e a autonomia do aluno.

Tori destacou que existem diferentes tipos de distanciamento que podem ocorrer na sala de aula como: aluno-professor, aluno-aluno e aluno-conteúdo. “As mídias e metodologias podem ser aliados importantes para o professor reduzir a percepção de distanciamento dos alunos seja no espaço físico ou virtual”, disse.

“Em todas as modalidades de educação, seja presencial, virtual, imersiva e/ou híbrida, existem uma combinação de distanciamentos. Para uma educação sem distância, é preciso ter foco,  flexibilidade, autonomia e interatividade”, afirma.

Agindo naturalmente

Como reduzir essas distâncias, manter o foco dos alunos em sala de aula e ter aquela sensação de que “a coisa fluiu naturalmente”? Segundo o pesquisador,  um dos grandes desafios dos professores em sala de aula é manter os alunos focados, longe das distrações e motivados a aprender. Para contornar o problema, ele propõe um caminho onde é possível alcançar um nível de concentração profunda, atenção e foco, denominado de flow. 

A teoria do flow, criada pelo psicólogo de origem croata Mihaly Csikszentmihalyi, é um estado mental atingido quando se está totalmente envolvido em uma atividade. É uma condição de foco absoluto que torna qualquer atividade espontânea e produtiva. Em essência, é um processo que acontece naturalmente e é caracterizado pela imersão completa no que se faz. 

“Quando estamos em flow nós somos absorvidos por uma sensação de energia, prazer e foco total na atividade. É quando trabalhamos no limite da nossa competência,  sem as barreiras de espaço e  tempo, e sem as preocupações cotidianas”, explica Tori

Metaverso e as tecnologias de imersão

Recentemente, o Facebook anunciou um novo projeto que pretende unir tecnologias de realidade aumentada e virtual no ambiente físico para permitir aos usuários habitarem mundos digitais juntos.  No lançamento, o CEO da rede social, Mark Zuckerberg, afirmou que deseja construir o tecido que conecta diferentes espaços digitais e superar as limitações físicas.

Mas afinal, o que é esse metaverso? É possível enxergar uma nova fronteira para a educação, inclusive no Brasil, com a utilização dessa tecnologia? Para o professor Homero Tori,  sim. Ele diz que os metaversos vão estar cada vez mais presentes em nossa cultura, assim como já aconteceu com TV, cinema, games e redes sociais, que também acabaram sendo incorporados às práticas pedagógicas. 

Mas ele alerta que apesar do metaverso criar um universo digital totalmente imersivo e interativo, não garante a melhoria na educação. “A mídia por si só, não tem o poder de melhorar os processos educacionais, da mesma forma que uma sala de aula, por mais bem equipada e confortável que seja não pode garantir que nela ocorrerá um aprendizado melhor que em outra”. 

Para ele, o que define a qualidade do aprendizado é a metodologia. O que garante a qualidade da metodologia é o uso adequado de mídias para implementá-la: “As metodologias corretas, com mídias certas e no momento certo é que têm potencial para revolucionar a educação, ou, pelo menos, aprimorá-la. Os metaversos possuem qualidades que os credenciam, na minha opinião, a serem considerados a próxima "mídia da vez", tanto na sociedade como na educação”, apontou.

“Os metaversos abrem novas fronteiras, tanto para as relações sociais quanto para a educação, a exemplo de outras mídias já o fizeram, como as videochamadas durante a pandemia”.

Setor público 

Quanto às metodologias de formação e capacitação, no âmbito do serviço público, Homero explica que essas novas tecnologias podem ajudar a capacitar e desenvolver a mentalidade digital do servidor público.

“A essência de como a capacitação dos servidores públicos deve ser feita é um know-how muito bem dominado pela Enap e não necessita de mudanças radicais, apenas que seja mantida a tradicional evolução constante sempre buscada por suas equipes, em acompanhamento e também antecipação, à própria evolução do setor público, das tecnologias e metodologias de formação e capacitação. O metaverso funcionará como mais uma ferramenta que será incorporada aos recursos usados pelos designers instrucionais e formadores da Enap”, conclui.

Sobre a Semana de Inovação 2021

A Semana de Inovação 2021 é um evento organizado pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap), Tribunal de Contas da União (TCU), Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e Ministério da Economia com o objetivo de reunir os principais especialistas do setor para promover debates e troca de experiências sobre iniciativas de uso de tecnologias, metodologias e processos para melhorar o serviço público brasileiro. 

Em 2021, o evento, considerado o maior de inovação em governo da América Latina, chega a sua sétima edição. Com o tema “Ousar Transformar”, a Semana acontece de 9 a 12 de novembro no formato online. Dataprev, Oracle, Huawei, NIC CGI, Microsoft, Serpro, Banco do Brasil, Embratel, EDS e AWS são patrocinadores desta jornada! Além do apoio da Embaixada da Dinamarca, Sebrae, BID, República, Hepta, KES, Unilever, Banco do Nordeste, SENAI, ABDI, IMM, Embaixada dos EUA, Demos Helsinki e OCDE.

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