Economista americano acredita em renovação e aprendizado com a Covid-19

O mundo vive hoje um dos maiores desafios de sua história recente. Os impactos da Covid-19 já são sentidos em nossas vidas, com mudanças que vão além do isolamento social. Com a deterioração fiscal em 2020 e nos próximos anos, a pandemia de coronavírus deve levar a economia mundial a registrar o pior desempenho desde a Grande Depressão de 1929, segundo relatório divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para responder ao cenário que se apresenta, o #FronTend desta semana recebeu o economista americano Glen Weyl, pesquisador da Microsoft e da Universidade Princeton, e presidente da fundação RadicalxChange, para uma conversa exclusiva sobre a retomada da economia na pós-pandemia do novo coronavírus.

Weyl é co-autor do "Roadmap to Pandemic Resilience” (Plano de Ação para Resiliência à Pandemia), da Harvard University, que explica como um aumento massivo no número de testes, em conjunto com rastreamento de contatos e auxílio ao isolamento social, podem restaurar a confiança e recuperar a economia.

Isolamento direcionado

“É um estudo que defende o isolamento como uma maneira de controlar a pandemia e que pode permitir que a economia volte ao normal”, explica Weyl. O documento, produzido por um grupo de especialistas em economia, saúde pública, tecnologia e ética, com o apoio da Fundação Rockefeller, é um roteiro operacional para mobilizar e reabrir a economia dos EUA.

Entre as principais recomendações está a necessidade de se realizar milhões de testes por dia até o início de junho para ajudar a garantir uma abertura social segura. “Em vez de quarentena universal com lockdown para todos, é preciso encontrar as pessoas doentes e isolá-las, para que a doença não se espalhe”, explica o economista. 

Essa abordagem é chamada de "isolamento direcionado", segundo o estudo. Nela, os testes são realizados naqueles que apresentam sintomas, e com exposição presumida, como os profissionais de saúde. As pessoas que tiveram contato com um caso confirmado também são testadas. A partir daí, enquanto aquele que tem um resultado positivo precisaria se autoisolar, quem tivesse um resultado negativo não precisaria necessariamente entrar em quarentena - a menos que estivesse aguardando os resultados iniciais do teste.“Por isso, o lockdown por si só não funciona se você não eliminar a doença”, afirma Glen. 

Retomada da economia

Vários países na Ásia e na Europa iniciaram a retomada gradual da atividade econômica sem uma vacina ou um tratamento efetivo, com o risco potencial de um novo aumento do número de infecções. “Muitas pessoas estão voltando à vida normal e à atividade econômica sem uma estrutura que nos permita acabar com a doença. Isso significa que logo a doença vai se espalhar com mais rapidez e aí, infelizmente, seremos forçados a impor o lockdown novamente”, lamenta.

Ele citou o exemplo da Suécia, que optou por não impor medidas restritivas para combater o coronavírus, e mesmo sem quarentena, viu a economia encolher. Na tentativa de salvar a economia, o governo sueco apostou que o país passaria sem tantos problemas pela pandemia, já que possui um sistema de saúde considerado moderno e eficiente. 

Entretanto, as expectativas para a economia não são o único problema da Suécia no momento. Nas últimas semanas, o número de casos confirmados de coronavírus começou a aumentar, assim como as mortes. “Nós vimos o quão falha é essa política em todo o mundo”, alerta Weyl. 

No caso do Brasil, pelo seu alto grau de desigualdade, as consequências para as populações mais pobres e trabalhadores informais aumentam à medida em que se agrava sua situação de vulnerabilidade no contexto de pandemia, isto porque “os trabalhadores precisam sair e acabam se contaminando”, explica. 

Segundo o especialista, sem testes as autoridades não são capazes de detectar novas infecções e notificar as pessoas expostas, o que evitaria a infecção de outras pessoas. E sem o rastreamento de contatos e o isolamento direcionado - que dependem de testes -, “pode haver um ressurgimento de casos”, alerta.

Sobre a retomada da economia, ele acredita que a crise será um impulso. “Há muita ênfase sobre como retomar a economia do ponto que estava antes da pandemia, em vez de permitir os novos arranjos. É necessário mobilizar a economia para mudar a natureza da economia”.

Glen acredita que a sociedade e os governantes têm que passar por um período de renovação e aprendizado, a partir das experiências bem-sucedidas, ou não, de outros países. “Assim, como na recessão da década de 1930 quando adotamos uma nova economia e novas possibilidades tecnológicas. Precisamos abraçar as novas possibilidades abertas para nós”, finaliza.

Assista o vídeo na íntegra: 

Foto: Divulgação







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