No mês da pessoa bibliotecária, a Biblioteca Graciliano Ramos, da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), realizou o evento “Bibliotecas Inteligentes: IA e o futuro da pesquisa”. A atividade fez parte do projeto Conecta Biblio 2025 e teve como objetivo tornar as bibliotecas mais inteligentes e inovadoras no processo conservação de documentos oficiais e históricos, na garantia da acessibilidade e no atendimento ao público.
“Nosso objetivo é tornar a biblioteca um espaço de compartilhamento de saberes e culturas. Torná-la viva. Tentamos sempre sair do nosso ‘quadradinho’ e chamar a comunidade em geral. Por isso nossos eventos são sempre abertos”, declarou a chefe de divisão de Biblioteca, Publicações e Plataforma da Enap, Tatiane Dias.
Foram convidados os palestrantes envolvidos com a temática de inteligência artificial e computação, Patrícia Baldez, coordenadora-geral do Laboratório de Inovação em Inteligência Artificial do Governo Federal (LIIA), e o professor associado do departamento de computação da UFRPE e líder do grupo Aspas, George Valença.
“A IA abre espaço para quem não pode vir pessoalmente, mas perde em relacionamento, contato, troca de experiências”, afirmou a coordenadora-geral do LIIA. Patrícia apresentou “Bibliotecas e IAs: da história à revolução digital”. “Devemos tentar entender de onde viemos e como possivelmente podemos atuar”, explicou.
Ela contou sobre as primeiras bibliotecas, na Mesopotâmia, e o surgimento da necessidade de registro, com destaque ao acesso limitado aos detentores de conhecimento, que eram especialmente os religiosos, e à maior biblioteca já registrada na humanidade, a de Alexandria, com mais de 500 mil manuscritos.
Patrícia ainda fez uma passagem pela revolução tecnológica, que permitiu a guarda de documentos, e ressaltou um pouco da história da China Imperial, que guardava suas coleções em palácios, com acesso restrito às cortes, dominadores do conhecimento e do poder político.
Contrariando o consenso popular de que a Idade Média foi um tempo de trevas, a coordenadora-geral do LIIA falou sobre um tempo de reprodutibilidade do conhecimento e alfabetização, ainda que de alguns religiosos para os nobres. Veio, então, o Renascimento do conhecimento, a criação da prensa de Gutemberg, que possibilitou a invenção do livro, e o Iluminismo, que finalmente abriu as portas das primeiras bibliotecas. “Começou-se a pensar na forma de acesso e troca para conhecimento compartilhado”, concluiu.
Era digital
Ao entrar na era digital, Patrícia destacou que a criação ainda será tipicamente humana por muitos anos, mas esse novo tempo gerou o sentido de preservação e digitalização dos acervos.
Ela esclareceu que desde a década de 1950 já se falava na inteligência artificial, com uma primeira publicação em 1957. O matemático e cientista da computação, Alan Turing, propôs, naquela época, a criação de máquinas capazes de simular a inteligência.
Riscos e benefícios
Para finalizar, a especialista da Enap em IA elencou os benefícios de uma base maior de dados coletados, mas ressaltou os pontos de atenção da IA na pesquisa, como respostas padronizadas, com tendência à homogeneização do conhecimento; a dissolução do conhecimento pela retroalimentação das IAs; o risco de plágio; falha na transparência; dependência tecnológica; a perda do pensamento crítico e o isolamento intelectual.
“A intenção é alcançar o equilíbrio entre as IAs e a colaboração humana. Conheça a engenharia de prompts para resultados mais assertivos, cite as IAs utilizadas na construção de artigos como referências e mantenha espaços de debates para construções parceiras e formações críticas”, indicou.
Sem dribles
Sobre “Pesquisas, alunos, crianças… Quais impactos a IA tem gerado e como podemos lidar com eles?”, o professor George Valença relatou os desafios entre entusiasmos e receios.
O docente falou sobre o uso indevido de IAs para driblar e ganhar tempo nos estudos, e citou uma pesquisa do The Wall Street Journal que registrou 40% de nível de confiança de estudantes nas IAs. Segundo o estudo, esses alunos utilizaram a inteligência artificial para concluir tarefas sem o conhecimento ou permissão dos professores.
Como dica, então, George apresentou três ferramentas para melhores coletas de dados via LLMs (modelos de linguagem), como a Consensus, que revela e sintetiza artigos mais relevantes para um tópico; Elicit, que automatiza partes da pesquisa por mapeamento, sintetização etc e a Google NotebookLM, uma ferramenta gratuita que resume informações, responde perguntas, cria guia de estudos e ainda gera podcast.
Entre os desafios do uso de IA citados pelo professor estão o agravamento das desigualdades, a desconfiança como premissa nos processos criativos e a escalada para problemas ainda não vigentes.
Como orientação, George indicou que é preciso levar em consideração o conhecimento das ferramentas, suas funcionalidades; entender como elas podem interferir nas rotinas e/ou auxiliar no uso, e avaliar continuamente os impactos.
Conecta bibliotecas
O Conecta é uma realização do Conselho Regional de Biblioteconomia (1ª Região - CRB1), em parceria com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e a Universidade de Brasília (UnB).
Assim como na Biblioteca Graciliano Ramos, da Enap, outras bibliotecas espalhadas pelo país também participaram da programação do projeto com atividades próprias.