Bruno Filardi (Instituto Câncer Brasil) explica a imunidade em camadas, vigilância genômica, tempo certo entre as doses e imunossenescência

Após mais de um ano e meio após o início da pandemia que trouxe desafios na vida das pessoas, modificou relações e até criou barreiras, ainda são muitas as dúvidas que surgem a respeito do que esperar do cenário futuro. Para Bruno Filardi, médico e diretor científico do Instituto do Câncer Brasil, a pandemia trouxe aprendizados dos erros e acertos no mundo todo e alertas para situações futuras.

“O conhecimento de que uma pandemia estava para acontecer não é algo novo. A vigilância é algo importante e que seria ideal se todos os países ou até um consórcio internacional conseguisse fazer”, defende. E explica a necessidade de se fazer uma vigilância genômica de qualquer agente potencial causador de pandemia. 

Filardi participou do primeiro Frontend de outubro e conversou com Juliana Venceslau, coordenadora de planejamento estratégico do Pnud. Foram debatidos assuntos como os desafios atuais e futuros da vacinação, medidas não farmacológicas e as novas ambiguidades no enfrentamento à pandemia. 

Imunidade em camadas

Para nortear a conversa, Bruno defendeu a importância de pautar políticas públicas em ciência e iniciou o assunto explicando conceitos de ciência básica, como por exemplo, o que é o vírus e o que é a imunidade. “Não é uma variável categórica, ou você está 100% imune ou você não está nada imune. Pelo contrário, a imunidade está em camadas, está em um contínuo e de diversas maneiras diferentes”, afirmou.

Ao apresentar as características do coronavírus, o SARS-CoV-2, Filardi demonstrou como ocorre a falha da resposta imune a ele. “A nossa resposta imune se dá em fragmentos. O problema das novas variantes é que, apesar de o vírus ser bastante estável, consegue gerar uma infecção com carga viral muito maior e você não tem um escape imune significativo. Você tem uma quantidade grande de outras regiões da proteína que o nosso sistema imune ainda vai continuar reconhecendo,” explicou.

A importância do tempo certo para a 2ª dose

Outro ponto sensível é a necessidade e a importância de respeitar o tempo entre as doses das vacinas. “Quando você tem a segunda dose muito próxima da primeira, há uma tendência a ter uma menor resposta imune”, explica. “Uma vez que o antígeno do vírus é apresentado na superfície celular, tem um processo de maturação que acontece nos linfonodos. Então as células de defesa dos nossos linfonodos vão apresentando antígenos e selecionando clones do sistema imune que conseguem reconhecer com maior afinidade aquele antígeno em um processo de maturação que leva alguns meses. Se você tomar a segunda dose muito precoce haverá uma menor resposta imunológica”. 

No caso da vacina Astrazeneca, de acordo com uma pesquisa divulgada pelo sistema público de saúde da Inglaterra usada por Bruno, o intervalo ideal entre as doses é de 12 semanas. “Isso ajuda na criação de um número maior de anticorpos neutralizantes. A mesma coisa com a vacina da Jansen, quanto maior o tempo, maior a quantidade de anticorpos”, afirma o médico. “O Brasil acertou muito bem nisso, a gente não fez a segunda dose com menos de dois ou três meses e isso garante uma com certeza uma imunidade melhor”, completa.

Segundo o médico, o ideal é tomar a segunda dose quando os anticorpos começam a cair, mas a queda de anticorpos não tem relação com queda da imunidade.“Depois de alguns meses haverá a perda de anticorpo. Mas assim que esse vírus chegar [ao organismo], será possível produzir imediatamente uma grande quantidade de anticorpo. O nosso corpo trabalha em economia e não fica gastando energia à toa”.

Em relação à convocação de idosos para a terceira dose da vacina. Bruno explica que isso faz parte da prevenção por conta do fenômeno chamado imunossenescência – o envelhecimento imunológico associado ao progressivo declínio da função imunológica e consequente aumento da suscetibilidade a infecções, doenças autoimunes e câncer, além de redução da resposta vacinal. “O problema do idoso não é só a imunossenescência em si, mas há também um risco de morte muito alto. No Então, no meu ponto de vista, será necessário acrescentar para a população idosa esquemas de vacinação pelo menos nos próximos anos. Além da necessidade de serem estudadas e desenvolvidas vacinas mais potentes”, afirmou o médico. 

Vacinação de todos com 1ª dose x vacinação de grupos com 2ª dose 

A necessidade de uma distribuição equitativa do imunizante é alertada pelo especialista como uma forma de evitar o surgimento de novas variantes do vírus da covid-19, relembrando países que não receberam doses suficientes para uma primeira dose. 

“Seria melhor vacinar todo o planeta com uma dose de vacina do que você ter grupos com duas doses de vacina, porque uma dose do imunizante já dá uma boa camada de proteção. É melhor uma proteção parcial do que nenhuma proteção, inclusive para novas variantes. É importante tomar cuidado com conceitos falsos. Não adianta toda a Europa ser vacinada e a África subsaariana não estar, ali pode surgir uma nova variante e colocar em risco todo o equilíbrio global,” conclui Bruno.

De volta à vida normal?

Ao ser questionado sobre o que devemos esperar para o próximo ano e quais são as expectativas para que tudo volte ao normal. Bruno disse que esta é uma afirmação complicada de se fazer e que modificações, como por exemplo o uso de máscaras em aeroportos, hospitais e locais com grandes aglomerações, podem continuar. “Quando a pessoa toma uma vacina não recebe 100% de proteção, não fica completamente imune a uma doença. Ainda pode haver a infecção, porém mais branda,” relembra o especialista.

Assista ao bate-papo completo no canal da Enap no Youtube. 

 

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