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Inteligência Artificial em Governo com propósito
(e um toque de poesia)

Data de Publicação: 06 de abril de 2026.
Rede InovaGov


Você já se perguntou sobre como será o futuro do seu trabalho no serviço público? Já sentiu aquela mistura de medo e euforia por tudo o que a Inteligência Artificial (IA) tem sido capaz de fazer, e o que essa revolução significa para a sua vida pessoal e profissional?

A Rede InovaGov tem uma comunidade que discute essas questões, é a TEIA - IA para Todos. Lá, em meio a tantas dúvidas, trocamos respostas e construímos insights que falam não apenas de IA, mas de temas que nos fazem efetivamente humanos, como a liderança e a necessidade de um olhar ético e poético sobre a vida.

Este artigo é um perfil, um retrato de alguém, fruto da conversa que tivemos com a líder da Rede TEIA, que também coordena o Laboratório de Inovação em Inteligência Artificial do Governo Federal, o LIIA da Enap, e é uma das pessoas mais influentes em IA para o setor público brasileiro: a Patrícia Baldez.

Patrícia é graduada em Comunicação Social e História e tem pós-graduações nas áreas de Gestão de Pessoas, Gestão Pública e Análise de Dados. Agora está terminando um MBA em Ciência de Dados e IA aplicadas a Políticas Públicas e tem uma energia admirável para se entregar a novidades e desafios.

Deve ser por essa energia que acumula reconhecimento internacional: foi escolhida pela Apolitical, em 2025 e 2026, como uma das líderes globais mais influentes em IA para o setor público. No Brasil, ela foi a única mulher nomeada. Além disso, é constantemente convidada para falar em seminários, apoiar na pesquisa acadêmica, e até mesmo trazer o olhar do Poder Executivo para dentro do Congresso Nacional.

O reconhecimento não somente abre portas para Patrícia como também para os seus projetos, e para o nosso país. “O Brasil precisa se ver como um gigante não apenas pela própria natureza, mas também por sua capacidade criativa, o tamanho de seu mercado, a determinação de seus servidores em sempre melhorar suas entregas. Acho que este reconhecimento, sendo relativo a influência em IA para o Setor Público mundo afora, pode indicar isso: temos muito talento aqui, que outros Estados querem ouvir”.

Junto do protagonismo, também vem a cobrança. Mulheres em posição de destaque, nota Patrícia, precisam se capacitar mais e seguir a cada passo provando para o mundo que são capazes. “Não basta só resultado. Aliás, nós mulheres somos cobradas antes de ter sido possível tempo de provar qualquer resultado. É tecnicamente exaustivo. Ter de estudar, daí fazer, daí estudar enquanto faz e fazer enquanto estuda, o tempo todo, em looping”.

Estudar IA, uma tecnologia em constante e rápida evolução, é desafiador para todo profissional - seja do setor público ou da iniciativa privada. Para essa dificuldade que tantos enfrentam, e que Patrícia também encara, uma solução é buscar conhecimento para além das aptidões naturais: “quem vem de humanas, como eu, terá de se capacitar em ciência de dados; quem vem das áreas relacionadas à tecnologia terá de aprender sobre ética, administração pública, redação, pensamento crítico”.

“Não dá pra falar de IA sem abordar os possíveis vieses que surgem com o uso frequente dessas tecnologias. Por isso, contar com a diversidade de gênero, cultural e étnica importa, e muito", afirma Patrícia. Durante nossa conversa, ela lembra do cientista Miguel Nicolelis e concorda com ele: “a IA não é nem tão inteligente, nem tão artificial", por isso as pessoas por trás dela são fundamentais.

“Embora pareça fazer mágica diante de nós, sendo bem reducionista, os LLMs, 'Large Language Models', ou 'Grande Modelos de Linguagem', um tipo de IA treinada com volumes imensos de texto para compreender e gerar linguagem natural de forma fluida, realizam cálculos estatísticos sobre o passado e entregam no presente o formato solicitado, que pode ser texto, imagem, música… Então, sim, os vieses são nossos, desde a base de dados para o treinamento, passando pela modelagem do algoritmo, até chegar no tipo de pergunta ou pedido que a gente faz a um GPT, ou 'General Purpose Technology'. Eles vêm da história de vida do desenvolvedor, das escolhas do gestor público na hora de montar as matrizes de suas bases de dados, das perguntas feitas a estes dados pelo decisor - o tal dono da caneta. Por isso acho fundamental ter representatividade em todos os passos desta cadeia.”

“Vou dar o exemplo da segurança pública, que é um tema que, pela minha história profissional, entendo um pouquinho. Uma base de dados seca pode nos levar a concluir, erroneamente, que negros seriam mais propensos ao cometimento de crime. Isso não consideraria a História do Brasil, a hipossuficiência econômica relacionada à raça, o racismo estrutural que enviesa o olhar humano. Por isso, a diversidade de experiências é fundamental desde a construção e análise das bases de dados, passando pelo desenho da política pública que precisa estar alinhada às necessidades do cidadão-alvo dos eventuais benefícios, até o desenvolvedor dos algoritmos e os servidores que conversarão com determinado modelo estatístico.”

Diferencial do serviço público brasileiro

Está cada vez mais fácil desenvolver algoritmos, mas é preciso propósito. Patrícia destaca que as inteligências artificiais não são tecnologias simples ou baratas. Apesar da facilidade no desenvolvimento, há necessidades específicas quando se trata de IA em Governo. “Quando pensamos em Estado, no tamanho das bases de dados, no ciclo das políticas públicas, na complexidade de respeitar leis como a LGPD, em buscar a menor pegada ecológica possível, em garantir a aplicação da ética e reduzir vieses… são tantos itens que realmente só acredito em uma saída segura em todos os sentidos: experimentar – e muito – antes de escalar”.

“A gente vai errar. A gente vai olhar para tudo com atenção e zelo e, ainda assim, deixar pontas soltas que só serão percebidas na testagem. A gente vai fazer lançamentos antes da hora e seguir fazendo ajustes virtualmente infinitos – a tal da iteração. Este é o coração na inovação: construir as possibilidades do novo reduzindo riscos, promovendo a economia de recursos e, no final da linha, entregando serviços cada vez melhores.”

O conceito de “errar rápido e pequeno” e a cultura de parceria e experimentação são princípios que movem o trabalho da GNova, que avança em diferentes áreas. Uma delas, que será lançada este ano, é a abertura de oportunidades para equipes de servidores interessadas em desenvolver IAs para os seus órgãos com assessoria do LIIA. Essa ação – a 6ª Edição da Janela GNova: LIIA Aceleradores Digitais – será dividida em três fases: a primeira de capacitação; a segunda de mão-na-massa; e a terceira de escala, já contanto com apoio de outros órgãos envolvidos na implementação do PBIA (Plano Brasileiro de Inteligência Artificial).

Além disso, o Laboratório quer desenvolver sua comunidade de prática com a Rede TEIA, que atualmente está mais voltada à divulgação de oportunidades no âmbito governamental. “Até agora, a rede é um, na verdade dois, grandes grupos de WhatsApp onde servidores se encontram para troca de informações, divulgação de oportunidades, e construção de debates voltados ao desenvolvimento e à aplicação de IA no setor público”, explica a líder. "Em 2026, a gente quer dar um propósito mais enxuto e claro para a comunidade e chegar ao fim do ano com uma clara construção coletiva".

Dentre tantos projetos, Patrícia conta que seu coração segue movido de fato pela pauta ambiental. “Tanto no campo mais clássico da proteção de florestas e reservas indígenas, como no escopo menos visto da preparação das cidades para as mudanças climáticas”, exemplifica. Ela acredita que o uso da IA para o planejamento e a gestão ambiental propositiva, com vistas a melhorar o uso equilibrado dos espaços urbanos e rurais está bem próximo do nosso alcance. “São processos bastante complexos, mas que, se a gente desenvolver certinho, torna o Brasil referência internacional.” No site do LIIA, você encontra links para um seminário e alguns cursos relacionados à interseção entre IA e Meio Ambiente.

Por onde começar?

E qual seria o caminho para quem está cheio dessas perguntas sobre o futuro e quer dar os primeiros passos? Patrícia recomenda uma formação voltada para a Transformação Digital do Estado. “Em linhas gerais, no contexto do PBIA a gente fala de servidor usuário de IA, do servidor desenvolvedor (gestor de TIC) e do servidor liderança ou gestor público. Esses públicos podem ser capacitados pelos cursos e programas da EV.G, por oficinas, por MBAse isso falando só da Enap. Há outras escolas - gratuitas e pagas - por aí, produzindo bons conteúdos diariamente”.

Ela complementa dizendo que, como servidora pública, se estivesse começando agora focaria em duas coisas antes de partir para a técnica ou o ferramental: “pensamento crítico e entender o papel do Estado como promotor de políticas públicas”.

“A gente precisa aprender a pensar nosso papel como servidor. Depois da gente entender quem é e como pode contribuir para que nossos respectivos órgão e instituições atinjam sua missão, daí a gente entende o que precisa aprender. E, como eu disse, há conhecimento disponível e acessível.”

Após uma análise pessoal, de escolher o recorte mais relevante para o momento de carreira, bem como o formato de ensino-aprendizagem mais adequado para seu perfil individual, Patrícia sugere começar pela base. “Na EV.G há cursos de variados níveis, com materiais em formatos diversos que geram certificado – isso pode ser importante em algum momento. Além disso, eu adoro usar as IAs do tipo LLM como tutor: conversar com elas; aprofundar os temas que eventualmente esteja estudando, tanto fazendo perguntas que poderia ter vergonha de expor a um humano por achar muito básico, quanto pedindo por novas conexões, novos caminhos”.

E sim! Ler livros! Patricia recomenda ler, especialmente porque essa habilidade, que está caindo em desuso, permite novas conexões cerebrais: “a leitura vai melhorar muito sua atenção e sua capacidade de mergulhar mais densamente nos assuntos em que eventualmente deseje se especializar”.

A leitura, a escrita manual, o olhar poético sobre a vida, são sensibilidades que Patrícia não abre mão. “Sabe o que é poesia adversarial? No ano passado, pesquisadores do Ícaro Lab e da Universidade Sapienza de Roma descobriram que LLMs têm dificuldade em interpretar metáforas e narrativas literário-poéticas levando este tipo de texto a ser uma possível chave para contornar códigos de segurança. Isso não é incrível? A gente fica aí super admirando as inovações tecnológicas e acaba esquecendo a riqueza que reside em ser humano, demasiado humano. Sentir de verdade, se emocionar, ter empatia, se motivar e se mover.”

E, em meio a tantas incertezas pelo futuro convivendo com a IA, ela recomenda um livro em específico: “Co-inteligência - Vivendo e Trabalhando com IA” de Ethan Mollick.

“Curtinho, fácil, gostoso. E indica um bom caminho para unir o melhor da tecnologia com o melhor que há em nós. Um futuro necessário, com uma voz cheia de esperança.”


Após a publicação do texto na Rede InovaGov, Patrícia Baldez deixou a liderança do LIIA para alçar novos voos. A equipe deseja todo sucesso e registra: já estamos com saudades.

O texto foi originalmente publicado em 06 de abril de 2026 no Linkedin da Rede InovaGov disponível em:

https://www.linkedin.com/pulse/intelig%25C3%25AAncia-artificial-em-governo-com-prop%25C3%25B3sito-e-um-toque-8rblf/


Palavras-chave: inteligência artificial; setor público; propósito; ética; diversidade, inovação; humanidade; LIIA.


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